terça-feira, 11 de agosto de 2009

Novo Olhar sobre a Psicologia

“Você precisa de atendimento psicológico.” ... “ Vá procurar uma terapia!”... Muitas pessoas se chocam ao ouvir tal indicação, tanto quando ela vem por meio de um profissional de saúde quanto quando é a dita por um amigo ou familiar; mas por que o espanto? O que significa, para cada um de nós, “precisar de psicoterapia”?

Talvez as respostas para essas perguntas devam ser buscadas nas representações sociais que construímos em torno da psicologia e da atuação dos psicólogos. Para isso, precisamos revisitar nossos conceitos de saúde e doença, sanidade e loucura, bem como nossas intenções de crescimento. Será que só precisamos buscar ajuda profissional quando os problemas são agudos e insustentáveis? Precisamos perder saúde física, relacionamentos importantes, para então atentar que emocionalmente já estamos doentes há tempos?

O conceito de saúde evoluiu. Hoje ele não significa apenas ausência de doença. É algo muito mais amplo, que abrange um estado de bem estar bio-psico-social. Assim, para ser considerado saudável além de saúde física é preciso estabelecer relações saudáveis, com vínculos que nos possibilitem crescer. Pensando assim, quantas pessoas realmente saudáveis você conhece?

Infelizmente os relacionamentos de um modo geral estão muito adoecidos. Famílias corroídas pela ausência de diálogo e intimidade, ambientes de trabalho adoecedores, casamentos desgastantes, amizades volúveis, mil necessidades pulsantes soterradas por expectativas frustradas... muitas vezes a cronicidade disso tudo acaba gerando uma doença que é na verdade apenas a ponta do iceberg.

Nesse sentido precisamos atuar preventivamente. Muitas vezes a indicação de procurar um psicólogo vem da evidencia de que estamos entrando num caminho de adoecimento. A psicologia esta aí para nos ajudar com uma infinidade de técnicas e recursos para melhorar nossa saúde emocional e relacional. Precisamos mudar nossa visão de que psicoterapia “ é coisa para louco”, pois a maior loucura é se negar a buscar recursos para viver melhor.

Aproveito a proximidade da comemoração do dia do psicólogo para refletir a real missão desta profissão. Somos agentes de saúde, lutamos pelo bem estar global das pessoas, estamos de olho no lado saudável, nas possibilidades de crescimento dos indivíduos, dos casais, das famílias... não tratamos doenças, tratamos pessoas! Seus dilemas, seus conflitos... suas capacidades de encontrar novas formas de tornar a vida mais rica, mais feliz. Muitas vezes é num encontro terapêutico que começamos a desata amarras que nos prendem a infelicidade.

Portanto, quando ouvir a indicação de procurar um psicólogo pense nas suas reais possibilidades de se desenvolver de formas mais saudável em todos os níveis. Buscar ajuda sempre vale a pena!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Problemas escolares: o que fazer?


Metade do ano se passou, metade do ano letivo também já se foi e para muitos pais esse é só o inicio das preocupações. A entrega dos boletins acontece e para alguns traz com ele desagradáveis noticias. Saltam aos olhos os problemas de aprendizagem, certificam-se os problemas de comportamento... os pais se perguntam: e agora, o que fazer???


É hora de agir. Ainda há tempo hábil para resgatar o ano ao invés de, mais tarde, apenas tentar remediar os estragos. O primeiro passo é identificar qual a real dificuldade e descobrir sua origem; esta pode ser uma descoberta bastante reveladora.


Pesquisas apontam que mais de 80% dos casos de dificuldades escolares são resultado de problemas emocionais. É um dado alarmante, pois mostra o adoecimento psíquico de nossas crianças. Mas será isso mesmo? Porque nossas crianças estão adoecendo? Como terapeuta de casal e família arrisco aprofundar a questão.

Acredito que na grande maioria das vezes as dificuldades escolares são apenas um sintoma que denuncia um problema familiar. A escola acaba sendo o local onde a criança expressa sua confusão e angústia, mostrando que a sua sobrecarga emocional a esta impedindo de aprender, ou de se relacionar de forma saudável.

Nesse sentido, peço atenção especial aos diagnósticos apressados. Agora “estada na moda” o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e suas promessas de controle/cura através de medicamentos. Precisamos ter cautela! Muitas vezes a desatenção ou a hiperatividade são apenas sintomas usados para expressar as dificuldades e não chegam a preencher os critérios para um transtorno neuroquímico como o TDAH.

Na grande maioria dos casos os pacientes que chegam rotulados de portadores de TDAH estão na verdade reagindo a uma conflitiva bem específica. O mais comum é apresentar sintomas como reação a uma crise conjugal dos pais; neste sentido os sintomas estão a serviço de manter os pais ocupados com os problemas do filho e, de certa forma, evitar que a crise evolua para uma separação. É um processo doloroso, no qual a criança sofre muito, pois carrega sobre seus frágeis ombros todo o peso do desajuste familiar.

Diante disso vamos olhar para nossas crianças com mais atenção. Que verdadeiro recado os boletins nos trazem? O que os sintomas vêem denunciar? Sem dúvida a melhor alternativa quando o problema escolar aparece é buscar uma boa avaliação para descartar causas físicas e cognitivas e entender o real significado dos sintomas. Em todos os casos uma psicoterapia de família ajuda muito, pois além de permitir um olhar mais global sobre o problema acaba trazendo benefícios para toda a família.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Quando o final não é feliz...



Todos desejamos encontrar um companheiro, namorar, traçar um caminho comum e tentar “ser feliz para sempre...”. Essa busca, que se inicia na adolescência, muitas vezes perdura pela vida toda, mas nem sempre tem um final feliz. Todos ficamos chocados com o número significativo de crimes passionais ocorrendo em nossa cidade (Palmeira das Missões); verdadeiras tragédias que ceifam vidas na plenitude da juventude, desgraçando famílias inteiras e nos deixando sem saber o que pensar.

Não estou aqui para fazer diagnósticos ou julgamentos, mas sim discutir a questão sem pudores, focando na disfuncionalidade dos relacionamentos afetivos. Há sinais de alerta que precisamos conhecer para proteger nossos jovens de finais tão trágicos.
Precisamos estar atentos para as “pequenas violências” que já começam a acorrer no inicio dos namoros. A submissão e renúncia da identidade são as primeiras coisas a aparecer. Vemos meninas lindas, cheias de vida e espontaneidade começarem a se apagar diante de namorados ciumentos, abrindo mão dos amigos, do convívio com a família, dos gostos pessoais... claro que uma certa dose disso ocorre em todos os relacionamentos, mas nesses casos não é algo transitório, mas sim progressivo, que acaba gerando um distanciamento cada vez maior das pessoas que poderiam questionar tal posição.

Toda relação é uma questão de encaixe. Muitas vezes, enquanto um se submete e o outro dita as regras, a relação vai “bem”... até que alguém questione. Precisamos prestar atenção em como o jovem casal se organiza nas primeiras discordâncias: é sempre o mesmo a ceder? Há lugar para o diálogo? Há ameaças de abandono? Acontecem mudanças de ambas as partes ou apenas um se molda ao outro?

Precisamos educar nossos filhos para combater qualquer sinal de violência nos relacionamentos. Discussões muito ásperas e agressões verbais já são primeiros indícios de uma personalidade agressiva. Um mínimo empurrão, segurar os braços com força, um puxão de cabelo, um mínimo tapa... enfim, toda grande agressão inicia com uma pequena. Temos que orientar a todos que NENHUM TIPO DE VIOLÊNCIA é aceitável numa relação conjugal, pois sempre é a porta de entrada para agressões maiores.

A agressão física é o sintoma que expressa a impossibilidade de se comunicar. Nesse sentido, agressor e agredido são vítimas, pois estão reféns do descontrole e da inabilidade de encontrar outras formas de se comunicar. Relações onde existe agressão física são construídas sobre os pilares de abusos e submissão gerada pelo medo. Isso acaba gerando uma dinâmica perversa, onde a vítima se envergonha e silencia, muitas vezes se julgando causadora da agressão. NADA JUSTIFICA AGRESSÃO! Se conseguirmos passar essa premissa para nossos filhos, já conseguiremos evitar muitos desfechos catastróficos.
Vamos abrir canais de diálogo, conversar com nossos filhos adolescentes e jovens adultos sobre seus relacionamentos, sua satisfação conjugal e expectativas. Precisamos desmistificar a idéia de que sapos viram príncipes, mostrando que muitas vezes as coisas que nos desagradam no início podem se tornar intoleráveis com o passar do tempo.

Claro que isso não é uma tarefa fácil. Para isso podemos contar com ajuda, buscando uma terapia de família para promover esse diálogo e reaproximar pais e filhos. Vamos investir em prevenção, usar as tragédias como motivadoras para a construção de novos caminhos rumo a finais mais felizes.

Dayani Croda Machado

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Os Desafios da Maternidade


“Ser mãe é padecer no paraíso!” Essa frase me intriga desde os tempos em que eu mau sabia o que significava “padecer” e hoje me parece a mais sublime das verdades. Apesar de batida, é uma frase que traduz muito bem as delícias, dissabores e desafios que envolvem a maternidade.

As mães padecem... os filhos não vem com manual de instrução... chegam frágeis, num momento de total fragilidade das mulheres; corpo ressentido por mudanças drásticas na gravidez, mundo emocional bombardeado por temores quanto a competência para cuidar de um bebê, medo das mudanças na relação conjugal... o cansaço da rotina com um recém nascido, as mil avós, tias, amigas dando dicas que mais atrapalha que ajudam... expectativas, expectativas, expectativas... mesmo a mais segura das mulheres padece, carece de cuidado para cuidar...

O paraíso chega... o primeiro toque... o primeiro olhar... o sentimento que nada mais importa... o prazer de ser única e insubstituível para aquele pedaçinho de gente... e depois segue nos primeiros sorrisos, primeiras gracinhas, primeiras palavras e no prazer de assistir de camarote o desabrochar de um novo ser.

Encontrar um equilíbrio neste “padecimento no paraíso” não é tarefa fácil. Tem horas que a maternidade parece uma dádiva, outras vezes, um castigo... não aceitar essa dualidade e não criar espaço para desintoxicar esses sentimentos é a porta de entrada para uma depressão pós-parto e para transtornos depressivos subseqüentes.

O papel materno é totalmente absorvente... o filho passa a ser a coisa mais importante, a prioridade absoluta... e não é esse o problema! O problema começa quando se espera que todas as gratificações e reconhecimentos que necessitamos provenham dessa relação. Aí acontece o desequilíbrio: descuidados do nosso papel de esposa, da profissão, dos amigos, deixamos de fazer coisas que nos nutrem e acabamos abrindo mão das outras facetas que constituem nossa identidade. Paradoxalmente, essa supervalorização da maternidade nos transforma em péssimas mães!

Se estamos confusas e mal nutridas, fica muito mais difícil enfrentar os percalços da primeira infância, as turbulências da adolescência e o bater de asas da vida adulta. Padecemos e gozamos do paraíso em cada fase e podemos até adoecer quando nosso ninho fica vazio...

Mães também precisam de cuidado... e a primeira pessoa cobrada é o parceiro. É aí que o casamento padece. Não é por acaso que os maiores índices de divórcio acontecem no primeiro ano de vida do bebê e quando os filhos saem de casa. São momentos de crises vitais, inevitáveis. O casal tem que se reorganizar e encontrar um novo equilíbrio, uma nova forma de relação. A terapia de casal esta aí para ajudar a não deixar que essa onda vire um tsunami.

São tantos os desafios da maternidade... Cuidar de si, cuidar do casamento e ainda cuidar dos filhos... ter em mente que tanto a falta de cuidado quanto o excesso fragiliza, impede um crescimento saudável. O maior desafio é acertar a dose e podemos/devemos buscar ajuda se nos perdemos pelo caminho. Uma maternidade saudável só é conquistada quando a mulher escondida atrás da mãe esta bem cuidada, física e emocionalmente.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

BULLYING – Um grave problema

O ano letivo começou e passada a euforia dos primeiros dias de aula os problemas escolares começam aparecer. Hoje em dia, além dos problemas individuais mais comuns (agressividade, hiperatividade, problemas cognitivos, depressão) os educadores se vêem frente a um problema mundial crescente: o Bullying.
O termo Bullying significa ameaça ou intimidação. É usado para identificar uma prática escolar que consiste em atitudes abusivas, agressivas, intencionais e repetidas, por parte de um agressor ou grupo de agressores, que perdura por um longo período de tempo. Esses comportamentos ocorrem sem motivação aparente, entre iguais (relação aluno-aluno), porém, dentro de uma realidade desigual de poder, gerando intimidação na vítima, dor, angústia e sofrimento físico e/ou emocional.
Há 3 tipos de manifestações do Bullying:
Físico: consiste em práticas como bater, roubar, danificar objetos alheios
Verbal: consiste em provocar, usar apelidos pejorativos, ameaçar, intimidar
Relacional: consiste em exclusão social, humilhação, espalhar rumores, por fim a amizades propositalmente
O Bullying tem conseqüências muito nocivas a todos os envolvidos. Tanto quem sofre o comportamento abusivo (alvos), quanto quem assiste a essa violência (testemunhas) acaba sendo gravemente afetados por ela. Não podemos esquecer que são nos anos escolares que estamos estruturando nossa personalidade, nos capacitando socialmente, e que num ambiente de humilhação e intimidação isso não ocorre saudavelmente.
As vítimas de Bullying apresentam comportamentos bem característicos: a criança tornar-se mais retraída, apresenta queda no rendimento escolar, falta de concentração, fobias, perda da vontade de ir ao recreio, tentativas de fingir estar doente para não ir à aula, além de diversos outros sintomas depressivos. Pode ocorrer da criança tornar-se agressiva ou irritadiça, como um reflexo das agressões que esta sofrendo.
A dinâmica do Bullying é complexa e segue os mesmos parâmetros de outros abusos: a vítima fica envergonhada e pode não delatar a agressão. Esse sofrimento solitário é devastador e trás graves danos a auto-estima da criança, afetando todo o seu desenvolvimento.
Toda a sociedade precisa ficar alerta e esse problema. Apelidos pejorativos, discriminação, “brincadeira” violentas, pequenas humilhações NÃO são “coisas normais de criança”! Isso se chama Bullying, trás prejuízos a todos e necessita de atenção especial. É preciso elaborar campanhas de conscientização dentro e fora da escola. Professores precisam ser preparados para lidar com isso, pais necessitam de orientação para ter diálogos com seus filhos sobre esse problema. Com certeza a interação família-escola é o melhor caminho para erradicar esses comportamentos.
Quanto a aqueles que já sofrem com o Bullying é preciso remediar os estragos. Vítimas e agressores podem precisar de ajuda psicológica especializada para superar o problema. O caminho é esse: aliar prevenção com reparação, buscando uma melhor qualidade de vida dentro da escola.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

DE CINDERELA À MULHER MARAVILHA

Apesar do machismo presente em nossa sociedade, é inegável que as mulheres sempre desempenharam um papel central na vida familiar. Os papeis de mãe e esposa sempre foram os alicerces da família, sendo que a expectativa depositada nas mulheres desde o berço é de serem grandes cuidadoras: primeiro do marido, depois dos filhos, depois dos idosos...
A educação que as meninas recebem desde cedo norteia para esse caminho... bonecas para brincar de mamãe... casinhas para brincar de dona-de-casa... Barbie´s e Poli´s para brincar de ser uma mulher linda e perfeita, e assim por diante... Crescemos construindo a expectativa de desempenhar bem esses papeis femininos.
Sem dúvida as mulheres evoluíram e transcenderam a tudo isso. Foram conquistados espaços importantes no mundo do trabalho, dos esportes, da política, sendo que hoje podemos dizer que não há uma só função nesse mundo que não possa ser brilhantemente desempenhada por uma mulher. Lindo discurso... belas e louváveis conquistas... mas a que preço? As mulheres não apenas conquistaram espaços e funções, mas sim acumularam funções e triplicaram, quadriplicaram expectativas.
Eis o momento que passamos de simples Cinderelas para Mulheres-Maravilha. Hoje SÓ se espera das mulheres que elas além de ótimas mães e esposas exemplares nos afazeres domésticos, ainda sejam muito bem sucedidas no trabalho, ganhem bastante dinheiro, tenham um bom currículo e se mantenham atualizadas, estejam sempre lindas, com corpos em forma, tenham disposição para uma vida social, estejam sempre prontas para apimentar a vida sexual... etc.
O mais grave disso tudo é que este padrão de exigências tão altas é cultivado e propagado pelas próprias mulheres. É só dar uma olhada nas capas de revistas femininas, que trazem a propaganda de verdadeiras cartilhas para conquistar a perfeição: “ Dez maneiras de crescer no trabalho”, “Dieta da Lua para um corpo perfeito em 7 dias”, “ Cinco dicas infalíveis para educar bem os filhos”, “ Manual do sexo prazeroso de A à Z”... Todos esses títulos remetem a uma só idéia: É você, mulher, que tem que se esforças mais para conquistar uma vida pessoal-conjugal-familiar feliz.
Ao meu ver, são essas expectativas descabidas que acabam gerando o adoecimento psíquico da maioria das mulheres. É comum os psicólogos receberem em seus consultórios mulheres exaustas e altamente culpada por não estarem conseguindo desempenhar com maestria seus mil e quinhentos papéis. Nota-se que até se sentem culpadas por não estarem plenamente felizes ou não se resignarem com “tudo de bom” que possuem. Vendo isso, percebo que não é à toa as mulheres sofrem mais depressão e doenças psicossomáticas.
As mulheres sabem cuidar... mas a maioria não sabe ser cuidada! Aprendem a se doar, a se preocupar com os outros, mas dificilmente conseguem olhar para dentro de si e perceber uma simples verdade: são humanas! Precisam de afeto, de cuidado... do olhar amoroso do outro. Grande parte das mulheres não deixa transparecer essas necessidades; vestem a roupa de Mulher-Maravilha e saem para o mundo... todos ao seu redor compram essa idéia e a tratam como tal. E aí se instaura o ciclo: os outros precisam, ela cuida, reforça a idéia de forte, os outros precisam mais, ela cuida mais... e assim por diante...
A psicoterapia acaba sendo um refúgio para que essas super-mulheres tenham espaço para expressar sua humanidade. Mostrar seus medos, suas inseguranças, suas carências... poder olhar para seu lado Cinderela, para suas expectativas e frustrações com os príncipes que inevitavelmente viram sapos...
Muita vezes o maior desafio da terapia é aprender a ser cuidada e a se deixar cuidar. Pode parecer pouco, mas faz uma enorme diferença. O alívio de poder transitar entre seu mundo de Cinderela e de Mulher-maravilha é uma conquista importante. Aprender a delimitar espaços, aceitar seus paradoxos, dosar expectativas, são conquistas indispensáveis para uma vida gratificante.
Mulheres, contem com ajuda! Mesmo que seja na intimidade de um consultório de psicologia. Sem dúvida, mulheres mais conscientes de seus limites são o primeiro passo para libertar tantas outras gerações de mulheres que podem e devem continuar a brilhar, mas de uma forma mais leve e humanizada.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Sexualidade na Infância: aspectos de sua manifestação


Freud foi o primeiro a reconhecer a existência de uma sexualidade infantil. Apesar de tal reconhecimento ter ocorrido há muito tempo, ainda hoje é um assunto controverso e, acima de tudo assustador para os pais. Além disso, atualmente vivemos uma época de extrema estimulação da sexualidade, num modelo adulto, que em muitos aspectos pode atropelar a passagem natural das crianças por seus estágios da sexualidade, conforme descreveu Freud.

A aflição dos pais sobre o tema é natural, frente a essa realidade. Muitos solicitam informações sobre o que é comum ou não em cada faixa etária. Sempre lembrando que nada é definitivo e que as crianças não são iguais, encontrei um livro que sintetiza o desenvolvimento sexual infantil de uma forma clara para leigos.

Trago aqui um levantamento adaptado de aspectos importantes para cada faixa etária conforme “Conversando com a criança sobre sexo: Quem vai responder?” de Gerson Lopes e Mônica Maia.

Recém nascido até 18 meses

— Início do processo de aprendizagem da identidade e dos papéis sexuais.

— Presença dos sentimentos sexuais/corporais nos primeiros meses de vida.

— Início da aprendizagem de conhecer e experimentar o próprio corpo.

— As primeiras experiências sexuais no contato com outras pessoas, principalmente sua mãe.

Atitude negativa dos adultos

— Definir a criança como inocente e assexuada até a puberdade.

— Reforçar os estereótipos do comportamento de meninos e de meninas.

— Ignorar prazeres íntimos individuais como parte do lado bom da vida, e a sexualidade como ingrediente vital do relacionamento.

Atitude positiva dos adultos

— Uso correto dos nomes para todas as partes do corpo.

— Reagir naturalmente a qualquer manipulação genital.

— Aceitar a sexualidade como parte da vida.

 

 

18 meses até 3 anos

— Assimilação do vocabulário; aprendem a andar, correr, etc.

— Expansão da consciência do mundo externo.

— Surgem as primeiras perguntas sobre sexo, sobre as diferenças entre homens e mulheres.

— Início do aprendizado do controle esfincteriano.

— Aprecia experimentar seus próprios genitais.

— Masturbação auxiliando na compreensão do seu corpo, de seu prazer e alívio de frustrações.

— Início do processo de socialização.

Atitude negativa dos adultos

— Evitam menções à área compreendida entre cintura e joelhos.

— Diminuição do contato corporal, principalmente quando se trata de meninos.

— Dificuldade em aceitar a existência de prazer sexual nas crianças.

— Repressão levando à sexualidade culposa.

 

Atitude positiva dos adultos

— A todo momento é importante que os adultos possam falar de suas vivências sexuais quando crianças, como uma forma de estarem mais aptos a entrar no quadro de referências das crianças.

— Reagir com calma quando a criança usar palavras feias relacionadas a sexo e atividades sexuais. Substituí-las pelas palavras corretas.

— Responder às perguntas de forma clara e objetiva. A criança não precisa de aula de biologia, mas de amor e sinceridade.

 

3 a 6 anos

— Predominância do pensamento mágico.

— Conflito entre o crescer e os privilégios de ser bebê.

— Aprende a definir limites do eu e do outro e agora terá de aprender os limites dos comportamentos.

— Grande interesse pelas formas de excreção.

— Tem sua própria explicação fantasiosa de onde vêm os bebês.

— Já é capaz de assimilar atitudes sexuais do meio, positivas ou negativas.

— Torna-se mais autoconfiante e mais consciente de seus limites.

— Familiaridade com diferença entre meninos e meninas.

— Perguntas direcionadas ao funcionamento das “coisas”.

— Inclui o outro nos seus jogos sexuais.

Atitude negativa dos adultos

— Pouca consciência sobre onde começa a educação sexual.

— Temor acerca da reação da criança frente às informações de cunho sexual.

— Reação repressora frente aos jogos sexuais.

— Expectativa de comportamento diferenciado entre meninos e meninas, levando a fortes conseqüências no comportamento sexual destes.

— Pouca informação no processo de socialização sexual.

— Evitar o contato corporal temendo despertar sentimentos eróticos neles e nas crianças.

 

Atitude positiva dos adultos

— Seja qual for a mágica, é importante não zombar ou reprimir, apenas dê respostas objetivas.

— Respostas curtas e objetivas nas perguntas sobre sexo.

— Respeito aos próprios limites.

— Ensinar às crianças que nenhum sentimento é feio, mas temos que aprender a expressá-los de forma adequada.

 

 

6 a 10 anos

— Aumento da pressão por influências externas.

— Interesse contínuo por assuntos sexuais.

— Retraimento em contatos mais íntimos.

— Brincadeiras sexuais, principalmente com o mesmo sexo, até por volta de 8 anos.

 

Atitude negativa dos adultos

— Exigência rígida de comportamentos estereotipados.

— Tabu acerca das brincadeiras sexuais entre as crianças.

 

Atitude positiva dos adultos

— Receptividade às decisões das crianças.

— Incentivar o senso crítico.

— Oferecer espaço para discussão da sexualidade.

— Usar respostas simples, pequenas e diretas a todas as perguntas.

— Criar um clima sexual positivo para que as perguntas apareçam.

— Usar oportunidades cotidianas para falar sobre sexo.

 

Referência:

LOPES, G.; MAIA, M. Conversando com a criança sobre sexo: Quem vai responder? Belo Horizonte: Autêntica/FUMEC, 2001.